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A partir desta quarta-feira (6), entra em vigor a mais alta tarifa já imposta pelo governo dos Estados Unidos a um país: 50% sobre uma série de produtos brasileiros. A medida, assinada pelo presidente Donald Trump no último dia 30, soma uma taxa recíproca de 10% a uma sobretaxa de 40%, atingindo cerca de 35% das exportações brasileiras com destino ao mercado americano.
Apesar do número expressivo, uma lista de 694 exceções promete amortecer os efeitos imediatos sobre o Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o governo brasileiro, negociações setoriais estão em andamento para reduzir ainda mais os impactos. O cenário, no entanto, se agravou com a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro e o viés político da decisão americana.
O tarifaço contra o Brasil tem início um dia antes da aplicação das novas taxas a outros países. Enquanto os demais terão os tributos ativados a partir de quinta-feira (7), o Brasil enfrenta as cobranças já nesta quarta, seguindo a ordem executiva específica assinada por Trump. Produtos embarcados antes da nova taxação e que cheguem aos EUA até 5 de outubro estarão isentos, conforme regra de transição estabelecida pelo governo americano.
A decisão dos EUA foi justificada como uma resposta a supostas “violações à liberdade de expressão” e “perseguição política” no Brasil, especialmente em referência ao julgamento de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Trump atribuiu a medida a uma tentativa de proteger seu aliado político.
Para o economista e Nobel Paul Krugman, o caso brasileiro é um “exemplo claro da ilegalidade” da política tarifária americana. Ele criticou a tentativa de Washington de influenciar políticas internas brasileiras por meio de sanções econômicas.
Além do julgamento de Bolsonaro, outras medidas tomadas pelo governo Lula também contribuíram para o acirramento da relação, como a proposta de substituição do dólar em transações internacionais e a ampliação das responsabilidades das redes sociais no Brasil — o que atinge diretamente as big techs americanas.
O impacto da nova tarifa será desigual entre as regiões brasileiras. O Nordeste deve ser o mais prejudicado, especialmente nas exportações de frutas frescas, pescados e calçados. O Centro-Oeste perde competitividade nas carnes e no café. Em contrapartida, os estados do Sul e Sudeste foram parcialmente poupados devido à exclusão de setores industriais de alto valor agregado, como o de aviação e celulose.
As exceções, no entanto, ajudam a aliviar o peso da medida. A Rio Bravo Investimentos estima que a tarifa efetiva média caia para algo entre 29% e 31%. A exclusão de produtos estratégicos, como o suco de laranja (90% importado do Brasil), foi vista como sinal de que os EUA ainda dependem de determinados itens da pauta exportadora brasileira.
Com a tarifa de 50%, o Brasil lidera o ranking de países mais taxados pelos EUA. A alíquota supera a de nações como Síria (41%), Laos e Mianmar (40%) e China (30%). Países como Argentina ficaram com a tarifa mínima, de 10%, enquanto México e China ainda estão em processo de negociação com prazos estendidos.
O governo federal prepara um pacote emergencial para socorrer os setores mais atingidos, possivelmente com crédito subsidiado e compras públicas de insumos estratégicos. Governos estaduais, como os de Goiás e São Paulo, também estudam linhas de financiamento alternativas.
Apesar do cenário desafiador, o mercado financeiro reagiu com otimismo à divulgação da lista de isenções. O Ibovespa subiu quase 1% e o dólar caiu de R$ 5,60 para R$ 5,49. Empresas como Embraer e Suzano registraram altas expressivas após terem seus produtos excluídos da nova taxação.
Analistas projetam impacto limitado sobre a economia brasileira. A Kinea estima uma redução de 0,2 ponto percentual no PIB, enquanto a XP prevê uma perda ainda menor, de 0,15 p.p. Já o Goldman Sachs manteve sua projeção de crescimento em 2,3% para 2025.
O Banco Central, no entanto, recomenda cautela, alertando para incertezas em relação aos efeitos da medida sobre os preços e a inflação.
Para os investidores, a orientação predominante é aumentar a exposição a ativos mais seguros, como títulos de renda fixa atrelados à inflação. No mercado de ações, a aposta se volta a papéis considerados resilientes, como os de empresas que pagam bons dividendos — caso de Itaú, Petrobras e Vale.
O governo brasileiro pretende negociar a redução das tarifas em setores estratégicos como café, cacau e carnes. Embora uma possível conversa entre Lula e Trump estivesse nos planos, os recentes desdobramentos políticos — como a prisão de Bolsonaro e as sanções a ministros do STF — esfriaram essa possibilidade.
Enquanto isso, o Brasil deu início a uma consulta formal à Organização Mundial do Comércio (OMC). Segundo o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, a ação visa defender “o direito soberano do Brasil de definir o seu próprio destino”, embora o sistema de disputas da OMC esteja atualmente paralisado.
Fonte: InfoMoney
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