A Bienal do Livro de SP, investe em tendências literárias em crescimento para atrair um público mais amplo.

Desde a época em que participava das bienais do livro como escritora independente, a mineira Sara Gusella percorria os eventos atrás de alguma mesa sobre ficção cristã. Nunca encontrava. Porém, conforme está nas Escrituras, um dia os humilhados serão exaltados. Na próxima quarta-feira (11), ela participa da mesa “Afinal, o que é ficção cristã?” na 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que começa nesta sexta-feira (6) e vai até o dia 15, no Distrito Anhembi, na Zona Norte da cidade.

Conhecida por sua veia pop, este ano a Bienal também abre espaço para a fé. Somente na Arena Cultura e no Salão de Ideias, os dois principais palcos do evento, haverá sete mesas dedicadas à religiosidade, como um debate sobre intolerância com o padre Júlio Lancellotti e o pastor e cantor gospel Kléber Lucas, uma conversa entre Conceição Evaristo e Itamar Vieira Junior sobre a representação literária das religiões afro-brasileiras e um bate-papo com Junior Rostirola, pastor e autor do best-seller “Café com Deus Pai”.

— Essa pluralidade é uma das coisas mais belas da Bienal — diz Sara, que lança no evento uma nova edição de “Os clãs da Lua” (Thomas Nelson), releitura do livro bíblico do Êxodo que se passa no espaço sideral.

Programação ampla

O foco na fé evidencia o esforço da Bienal de acolher todos os públicos. Não importa o que se goste de ler, seu gênero favorito deve estar incluído na programação. Até o último dia do evento, haverá mesas sobre praticamente todas as grandes tendências do mundo literário: ficção climática, literária, de cura, literatura erótica, para as infâncias, romance policial, esportivo, romantasia… Não à toa, a percepção dos editores é que a Bienal do Livro de São Paulo cresceu e se profissionalizou, tornando-se tão estratégica para o mercado como a do Rio, que costuma chamar mais atenção.

Realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), a Bienal vai custar R$ 36,5 milhões e ocupar 75 mil metros quadrados do Anhembi. Serão mais de duas mil horas de programação em 13 espaços diferentes, onde são esperados 716 autores: 683 brasileiros (como Ana Paula Maia, Thalita Rebouças e Felipe Neto) e 33 estrangeiros, como o cubano Leonardo Padura, o americano Jeff Kinney (“Diário de um banana”) e 17 autores da Colômbia (país homenageado no evento). Os ingressos custam R$ 35 e estão à venda no site da Bienal. Ônibus gratuitos farão o transporte do público desde a estação Portuguesa-Tietê (Linha 1-Azul do Metrô).

Presidente da CBL, Sevani Matos espera que a visitação desta edição supere a de 2022, que foi de 660 mil pessoas. Como o público da Bienal “vai de “bebezinhos à terceira idade”, a programação deve ser a mais diversa possível e abranger também debates sobre religião, diz ela. Diana Passy, curadora da Arena Cultural, lembra que best-sellers religiosos, como Padre Marcelo Rossi e Monja Coen, sempre frequentaram as bienais. A novidade, porém, é a aproximação da fé e da literatura, promovida pela ficção cristã ou por romances inspirados na religiosidade afro-brasileira.

Embora o público jovem seja o mais barulhento da Bienal, a curadoria se esforçou para convidar outros perfis de leitores para a festa, inclusive aqueles que talvez achassem que o evento não fosse mais para eles.

— Meu desejo é desfazer a imagem de que a Bienal é apenas para o público jovem ou para um determinado tipo de leitor. Às vezes, leitores de ficção literária acham que a Bienal não é para eles. O público geek também sumiu da Bienal. Para trazê-lo de volta, estamos trazendo um dos maiores nomes da ficção científica, John Scalzi (que participa do evento no dia 15). A Bienal é para todos — diz a curadora.

Ponto alto

Com uma programação tão diversa, editoras com catálogos ecléticos fazem a festa. A Sextante, por exemplo, vai levar três autores estrangeiros com perfis bem distintos: a americana Abby Jimenez, que escreve comédias românticas, a holandesa Elma van Vliet, cujos livros interativos incentivam o resgate da memória familiar, e o neurocirurgião americano Rahul Jandial.

— Uma bienal que é só pop é um risco. As bienais são o momento de glória dos livros e, por isso, elas precisam contemplar todos os públicos. Os curadores têm um trabalhão para montar esse quebra-cabeça, para apresentar uma programação plural e fazer match de autor — diz Marcos da Veiga Pereira, sócio-diretor da Sextante. — Se a programação é diversificada, tanto as grandes editoras conseguem encaixar seus autores quanto as pequenas podem explorar seu nicho.

Pereira recorda que o faturamento da Bienal de São Paulo costumava ser metade do da Bienal do Rio. No entanto, a edição de 2022, a primeira já sem as restrições da pandemia, bateu recordes e surpreendeu os editores, que, desta vez, reforçaram os investimentos no evento paulistano. É só reparar nos números. Este ano, 227 expositores estarão na Bienal (eram 182 há dois anos), que ocupa um espaço 15% maior do que o de 2022. Cerca de 17 mil m² serão ocupados pelos estandes, um aumento de 45,2% em relação à última edição.

Os estantes das editoras ouvidas pelo GLOBO aumentaram mais de 60% de 2022 para cá. Vanessa Oliveira, gerente de marketing da Intrínseca, aponta que os espaços estão mais “instagramáveis”, porque “o leitor não está ali só pela compra, mas também pela experiência”.

— No Rio ou em São Paulo, a Bienal é o evento onde temos contato direto com o público, que gosta de ver a mágica acontecendo, de comprar da mão de quem fez. Isso dá um gás para continuarmos investindo. Se o evento cresce, a gente acompanha — diz ela, que percebe que a Bienal de São Paulo está cada vez mais “madura e interessante” e fincou de vez o pé no calendário de eventos da cidade.

Cara de Bienal do Rio

Para ilustrar o sucesso da última Bienal de São Paulo, Mauro Palermo, diretor da Globo Livros, diz que a festa teve “cara de Bienal do Rio”. Não à toa, as expectativas estão nas alturas. A Globo Livros espera vender 25% a mais do que em 2022.

— As duas últimas bienais foram tão boas que o nosso mercado tão sofrido se animou e está investindo mais este ano e trazendo mais autores para a programação. Assim, ganhamos todos: o público e as editoras — diz Palermo.

Embora a programação esteja mais plural, o editor afirma que o foco ainda é o público jovem. Tanto que o estande da Globo Livros terá o nome do selo jovem da editora: Alt.

Autor do projeto “Textos cruéis para serem lidos rapidamente”, Igor Pires é um dos nomes da Alt na programação. Na Bienal, ele lança seu sexto livro: “Este é um corpo que cai mas continua dançando”, que aborda as frustrações da geração que beira os 30 anos e acumula sonhos não realizados. Vários leitores já escreveram avisando que vão vê-lo no Distrito Anhembi.

— O processo de escrita é sempre muito solitário, e o encontro com o público é uma euforia. A minha galera é muito fervorosa. É assim que eu vejo que o meu trabalho tem sentido — afirma.

Susto com multidão

Ao ser convidada para a Bienal, a escritora coreana Hwang Bo-reum procurou vídeos da última edição na internet e se assustou com a multidão. Ela é autora de “Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong” (Intrínseca), uma das primeiras “ficções de cura” (rótulo dado àqueles livros asiáticos fofinhos ambientados em cafés e livrarias) publicadas no Brasil.

— Os leitores costumam me dizer que se sentiram abraçados pelo meu livro. Embora eu não conheça meus leitores brasileiros pessoalmente, vários deles já me mandaram mensagens pelas redes sociais. Alguns disseram que conseguiram senha para a sessão de autógrafos — diz ela, que participa da Bienal no dia 14. — Nunca participei de um evento literário tão grande assim. Estou bastante animada.

Fonte: O Globo

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