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As vacinas de RNA mensageiro (RNAm) marcaram um avanço significativo durante a pandemia da Covid-19 e agora estão prestes a revolucionar o tratamento do câncer. Especialistas antecipam que, ainda nesta década, poderemos ver a aprovação de uma vacina terapêutica para tumores.
Patrícia Neves, líder científica do Projeto RNA de Bio-Manguinhos, relata que, embora o foco inicial tenha sido redirecionado para o combate à Covid-19, os esforços agora se voltam novamente para o desenvolvimento de vacinas antitumorais, começando pelo câncer de mama.
A vacina mais avançada contra o melanoma, o tipo mais letal de câncer de pele, está na fase final de testes clínicos. Desenvolvida pela Moderna em colaboração com a MSD, ela foi designada como ‘terapia inovadora’ pela FDA nos EUA. Os resultados da fase 2 indicaram uma diminuição significativa no risco de morte ou recidiva e de morte ou metástase. A Moderna também está concluindo estudos clínicos de vacinas contra o câncer de pulmão de células não pequenas e câncer de bexiga.
Michelle Brown, vice-presidente e líder de portfólio da Moderna, destaca que a plataforma de RNAm é versátil, permitindo o desenvolvimento de uma ampla gama de vacinas e terapias, incluindo para oncologia. O objetivo é ensinar o sistema imunológico a identificar e combater células cancerígenas, melhorando os resultados para os pacientes.
A BioNTech, outro laboratório na vanguarda das vacinas de RNAm, também está desenvolvendo imunizantes avançados contra o melanoma e o câncer de pulmão de células não pequenas, além de tratamentos para outros tipos de câncer.
Os dados iniciais da vacina contra o câncer de pâncreas são promissores, mostrando que, após três anos da aplicação, metade dos pacientes mantinha uma resposta imunológica, associada a uma maior sobrevida e menor risco de recorrência do tumor.
Embora seja prematuro especular sobre prazos, representantes da Moderna e da BioNTech acreditam que as vacinas podem se tornar realidade até 2030. Bruno Filardi, oncogeneticista e pós-doutor em Imunopatologia Celular pela USP, concorda com essa estimativa, prevendo aprovações em meados de 2026 ou 2027.
As vacinas funcionam fazendo com que o sistema imunológico reconheça o tumor, algo que não ocorre naturalmente, pois as células cancerígenas conseguem se disfarçar como “saudáveis”. Filardi explica que é necessário apresentar ao sistema imune uma proteína específica do tumor para que ele possa atacá-la.
A Fiocruz, selecionada pela OMS para impulsionar a plataforma de RNAm, está avançando em seu projeto, inicialmente focado no câncer de mama triplo negativo. A estratégia da Fiocruz busca desenvolver uma vacina mais universal, identificando proteínas comuns a diferentes pacientes com o mesmo tipo de tumor.
Neves destaca a importância de validar esses alvos e comparar os dois tipos de tratamento para determinar qual oferece a melhor eficácia e custo-benefício para o SUS. A tecnologia de RNAm não é o desafio; o desafio é encontrar as proteínas certas que possam induzir proteção contra diferentes tipos de câncer.
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