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Novidade foi apresentada por Adriana Ferreira, conhecida por versões criativas do tradicional quitute baiano
DR. RENO VIANA
Magistrado e escritor. Escrita sobre aquilo que permanece, entre contextos, pretextos, subtextos, metatextos, sobretextos.
Aqui no Nordeste, poucas coisas possuem tanta força simbólica quanto o período junino. As ruas começam a se encher de bandeirolas coloridas. O cheiro de milho cozido, pamonha, canjica, bolo de milho e cuscuz reaparece com força. A sanfona, a zabumba e o triângulo voltam a comandar a trilha sonora das cidades. As quadrilhas juninas se organizam. Os chapéus de palha saem dos armários. E, por algum tempo, parece que as pessoas tentam recordar uma parte muito antiga de si mesmas.
Talvez por isso o mês de junho sempre me faça pensar na importância da Cultura.
Pensar na importância das coisas do Brasil.
Confesso que nunca encontrei uma definição plenamente satisfatória para essa palavra Cultura. Já recorri inúmeras vezes aos meus velhos amigos, os dicionários Houaiss e Aurélio, mas o conceito continua escapando um pouco entre os dedos.
Ainda assim, existe uma ideia que sempre me acompanha. Os problemas econômicos e políticos são importantes e precisam ser enfrentados. Mas, mesmo quando solucionados, ainda restaria uma pergunta essencial sobre qual o sentido da vida.
É justamente nesse ponto que a Cultura parece entrar em cena. É ela que pode oferecer a resposta.
A Cultura ajuda a construir narrativas, memórias, pertencimentos, afetos. Essas experiências compartilhadas constroem propósitos para a existência humana.
Talvez seja ela que possa transformar um conjunto de indivíduos numa experiência de convivência. Transformar um bando de primatas em uma Nação…
Esses pensamentos acabam me levando frequentemente a dois escritores brasileiros que ocupam lugar especial na minha estante e nas minhas leituras. Mário de Andrade e Oswald de Andrade.
Desde o ano passado, tenho mantido por perto a excelente biografia Oswald de Andrade: Mau Selvagem, escrita por Lira Neto. É um daqueles livros que permanecem durante meses na cabeceira, sempre abertos em alguma página.
Ao acompanhar a trajetória de Mário e Oswald, fico impressionado com a ousadia daquela geração. Eles acreditavam que o Brasil precisava descobrir a si mesmo. Não através da simples repetição dos modelos estrangeiros, mas a partir de sua própria voz, de sua própria linguagem e de sua própria experiência histórica.
Essa busca encontrou um momento decisivo na Semana de Arte Moderna de 1922. Ali começou a ganhar forma um projeto cultural que procurava renovar a literatura, a música, as artes e o próprio modo de pensar o país.
Cada um seguiu depois o seu caminho.
Oswald formulou a ideia da Antropofagia, defendendo que o Brasil deveria absorver influências estrangeiras sem perder sua identidade, transformando tudo em algo novo e genuinamente brasileiro. A imagem escolhida por Oswald era provocadora e brilhante ao mesmo tempo. A Antropofagia não significava rejeitar aquilo que vinha de fora, mas devorá-lo simbolicamente, assimilando o que houvesse de valioso e recriando tudo segundo a nossa própria sensibilidade. Em vez da cópia servil ou da rejeição ressentida, Oswald propunha uma atitude criadora. O Brasil deveria dialogar com o mundo sem abrir mão de sua singularidade. Talvez seja por isso que sua proposta continue tão atual. Em tempos de globalização, ela ainda nos convida a pensar como preservar a identidade sem fechar as portas para a novidade.
Mário percorreu uma trilha diferente, dedicando-se a registrar lendas, sotaques, cantigas, festas populares e manifestações culturais espalhadas pelo país. Seu esforço culminou em Macunaíma, obra que continua sendo uma das mais fascinantes tentativas de retratar a complexidade da alma brasileira. Ao longo da vida, Mário de Andrade foi ampliando sua reflexão sobre a função social da arte. Para ele, a criação artística não deveria permanecer isolada em círculos restritos, distante das experiências concretas das pessoas. A arte possuía uma responsabilidade humana e cultural. Era uma forma de preservar memórias, fortalecer vínculos e ampliar a compreensão que uma sociedade possui de si mesma. Talvez por isso Mário tenha dedicado tanta atenção à música, ao folclore e às manifestações culturais espalhadas pelo país. Ele acreditava que a Cultura brasileira precisava ser conhecida, valorizada e compartilhada.
Com o passar dos anos, ambos aprofundaram suas reflexões sobre arte, cultura e sociedade. E talvez seja justamente por isso que continuam tão atuais. Não estavam preocupados apenas em aparecer como escritores. Tentavam compreender o Brasil.
Em tempos de transformações aceleradas, de algoritmos, redes sociais e Inteligência Artificial, talvez a antiga pergunta continue valendo: Afinal, quem somos nós, os brasileiros?
Ou, em outra formulação talvez mais simples, qual o significado dessas coisas do Brasil?
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